terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Não é do amor que tenho medo




Você ignorou o aviso na porta. Entrou e perturbou a ordem que demorei a construir.  Meu plano era nunca mais dividir o açúcar com alguém, agora estamos aqui, brigando para caber debaixo do mesmo cobertor. Não estou com raiva de você, só tenho medo de te amar demais. Talvez já seja amor demais, pois dormir me parece menos importante que passar a noite te olhando descansar em meu peito.
Ainda não parei para listar o que temos em comum. O que me faz deixar você ficar. O que te impede de partir. Talvez seja nossa paixão por livros, nossa mania de trocar segredos ou a facilidade que temos de compreender o que o outro diz e o que mora no silêncio de cada um. Você me chama de obcecada porque carrego sua foto na bolsa, mas foi você quem escolheu nossa música e me propôs casamento na noite passada e hoje pela manhã também. É você quem testa meu ciúme falando de outras mulheres e entrega o seu quando outros homens se aproximam de mim. Somos obcecados juntos quando esquecemos o filme rodando na sala e vamos para o quarto. Quando ligamos no meio do dia só para ouvir a voz do outro, só para dizer que deu saudade e que o programa da noite será ficar juntinhos outra vez, na cama ou no videogame, tanto faz. Quando estamos com raiva eu viro a Bruxa e você o Chato, mas o amor continua o mesmo. Brigamos para fazer as pazes, fazemos as pazes prometendo nunca mais brigar e brigamos de novo. Então, você cede e confessa que eu tenho uma grande influência sobre você. E não vejo nisso nenhuma vantagem porque eu sou toda influência sua. Eu que sempre cortei o amor pela raiz, agora acordo cedo todos os dias para regá-lo com beijos e sentir seu cheiro pela manhã. O melhor cheiro do mundo. Eu que me escondia de todos, tive que aprender a deixar você me virar do avesso. 
Depois de tanto tempo parada eu não consigo ir devagar. Atropelo os dias e brinco de construir futuro pra gente. Repito para mim mesma: não posso sentir isso. Não desse jeito tão sem controle e que controla minha vida, reorganiza a minha agenda para sempre ter espaço para nós dois. Desse jeito que rouba o ar e rouba a fome de qualquer outra coisa que não seja você. Desse jeito que me faz passar a noite em claro e ainda acordar de bom humor. Não sei brincar dessa coisa de estar apaixonada, então eu levo a serio e te desejo da forma mais madura que já desejei alguém. Com você eu dispenso o uso de conta gotas, e derramo litros de amor todos os dias porque sei que amanhã tem mais. Mas, temo que fique muito cheio e queira ir embora. Então, por favor, me diga onde fica o freio. Ensina-me a sentir com calma e aproveitar a beleza de cada dia da eternidade que desejo para nós. Mostra-me que não foi um erro mantê-lo aqui dentro e acolhê-lo com seus sentimentos mal resolvidos ainda que você tenha me encontrado em paz com os meus. A casa é sua se quiser. E eu também.
Moço, não é do amor que tenho medo. Tenho medo da falta que ele faz. Tenho medo do que vem depois desses dias fartos. Tenho medo da sua mala que ainda não foi desfeita e da liberdade que te dou ao deixar a porta aberta. Tenho medo de um dia você acordar, olhar para sua bagagem e se lembrar de que parou no lugar errado. Tenho medo de você descobrir que sou caminho e não destino, e então, me deixar sozinha outra vez com o açúcar, o cobertor e essa bagunça que construímos juntos.





segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Vinte e três




A tarde estava cinza demais para se aventurar em uma caminhada, poderia chover a qualquer momento, mas ainda assim me arrisquei. Não havia tanto movimento na rua e dos poucos rostos que vi, nenhum deles me pareceu familiar. Nem mesmo o caminho me parecia familiar. Continuei andando distraída com o barulho dos meus próprios passos e levei um susto quando senti meu celular vibrando no bolso da minha calça. Uma nova mensagem: "Essa é a última chance de ficarmos juntos. Se você também deseja, responda essa mensagem com o número 23. Por favor, aceite. Que se dane o resto do mundo!" Fiquei olhando para meu telefone sem acreditar. Há quase um ano não trocamos uma palavra sequer, e você acha que as coisas podem ser resolvidas desse jeito? E que droga é essa de número 23? Não poderia ser algo mais simples, como "sim"?  Estava decidida a ignorar sua mensagem, consegui por dois segundos, e quando me dei conta já havia escrito vinte e três em algarismos, por extenso e até em numeração romana. Apertei enviar. Pronto. Então, comecei a imaginar você aparecendo ali e me levando para um piquenique a beira do lago, quando meu celular vibrou novamente e no visor apareceu a seguinte frase: Falha ao enviar mensagem. Tentei de novo, de novo e cada vez que aquelas palavras apareciam na tela, o meu desespero aumentava. Poderia mudar o rumo da minha vida com apenas um torpedo e aquele maldito celular não me ajudava. Continuei andando, já sem saber onde eu estava, até que meu celular vibrou de novo, dessa vez era meu despertador me chamando para viver mais um lindo dia.
Abri os olhos, feliz por estar segura em minha cama, abraçada ao meu coração de pelúcia, aquele que você me deu quatro anos atrás, já surrado por suportar o peso que me tornei longe de você. E em meu peito, o coração que eu te dei, permanecia acelerado e animado por ter recebido um falso torpedo seu. Lembrei-me do sonho e caí em uma gargalhada gostosa, coisa que raramente tenho feito e, como se aquilo ainda fosse um desafio, peguei meu celular, escrevi uma mensagem apenas com o numero vinte e três e lhe enviei. Mensagem enviada com sucesso. Pronto, está aí sua resposta. Mas, vinte e três é pouco diante de tudo que quero falar. Esse sonho maluco me fez perceber que ainda sinto sua falta, é por isso que agora lhe escrevo.
O que posso fazer se minhas palavras insistem em querer conversar somente contigo? Elas têm percorrido o caminho do teu coração antes mesmo de nos conhecermos. Lembro-me quando o vi pela primeira vez, você ainda bem moço, grande demais para bicicleta que montava, pedalava distraído, como se sua única preocupação fosse existir. Quando nossos olhares se cruzaram, não houve a sensação de primeiro encontro, houve um reconhecimento. Era você. Naquele momento descobri que o amor que eu carregava para todos os lados dentro dos meus livros, estava passeando por aí em cima de uma bicicleta. Quando cheguei em casa, escrevi um texto sobre ter olhado nos olhos do amor. 
Eu sabia que o amor tinha passado por mim, mas não sabia quando o veria novamente, talvez nunca. Eu era muito nova e encontrar alguém ainda não estava em minha lista de prioridades, talvez por isso essa incerteza não se tornou uma preocupação. Alguns anos se passaram e, no tempo certo, vi o amor novamente através dos mesmos olhos, dos teus olhos. Todo amor tem seu destino, não importa por onde ele ande, se ele te achou uma vez, ele sempre encontrará o caminho de volta. Foi isso que aconteceu com a gente, mesmo sem saber meu nome, meu endereço, você bateu na porta do meu coração mais uma vez. E dessa vez, permiti que entrasse. Assim, minhas palavras passaram a ter acesso direto a você. Era seu aniversário e eu lhe escrevia. Era dia dos namorados e eu lhe escrevia. Era Dia da Árvore e eu queria escrever para você. Porque te escrever sempre foi o que fiz de melhor.
Amor, um sentimento divino habitando em seres tão falhos. Descobrimos primeiro o amor para depois desvendar os mistérios um do outro. Nossas diferenças, até então encobertas pelo sentimento vieram à tona.  Ao teu lado descobri minhas palavras mais insensíveis e descabidas. Elas saiam atrevidas ao seu encontro e voltavam muitas vezes sem resposta. Até que um dia aconteceu. Outra despedida. Foi mais difícil porque eu não apenas vi o amor, eu o toquei, o senti. Tenho o meu próprio romance agora. 
A incerteza dessa vez me preocupa, me perturba. Pode ser que você retorne daqui a alguns anos, como foi da primeira vez. Mas tenho medo de que, de todas as medidas de tempo, você escolha a eternidade. Todo amor tem sua casa e o meu escolheu morar em você. Dizem por aí que os olhos são a janela da alma, foi por isso que através teus olhos eu pude ver meu amor ai dentro. O que eu faço agora que sei seu nome, endereço, mas não posso ir até você? O que eu faço com esses rascunhos em minha gaveta das últimas cartas que fiz?
Depois de tudo, eu até aceito o fato de voltar a ser aquela menina que não acreditava no amor fora das páginas de um livro, enquanto você enfeita o mundo em cima de sua velha bicicleta. Mas, parar de lhe escrever? Isso, eu não posso. E se um dia essas palavras chegarem até você, saiba que essa é a ultima chance de ficarmos juntos. Se você também deseja, responda essa carta com o número 23. Por favor, aceite. Que se dane o resto do mundo! 
Não meu amor, isso não é um sonho.

domingo, 13 de maio de 2012

Acabou


Acabou. Nunca entendemos o significado dessa palavra. Já perdi a conta de quantas vezes disse adeus e saí por aquela porta, mas em todas elas retornei pedindo que me amasse mais um pouquinho. E em outras tantas quem partiu foi você, mas sempre voltou para conferir o tamanho do meu sorriso e quando era largo demais o ciúme o fazia ficar por mais tempo.
Há anos estamos nos acabando por não enxergar que acabou. Não sei seus motivos, mas toda minha volta foi por não aceitar que sua vida poderia continuar bem sem mim. Antes desejar sua felicidade doía ao ponto de me fazer duvidar da minha sinceridade. Mas hoje acordei te amando tanto, mas tanto, que só quero que seja feliz.
Você foi o ultimo a dizer adeus, e a espera já virou um costume, mas dessa vez enquanto aguardava fiquei imaginado seu riso. Sei de cor sua gargalhada silenciosa sempre acompanhada de lagrimas quando está diante de algo muito engraçado, também conheço aquele riso sem graça de quem não sabe o que dizer quando o assunto é desconfortável. Imagino você rindo e independente de onde eu esteja acabo imitando o som que você faz. Foi assim, lembrando de você feliz, que me dei conta de que não importa o motivo de seu sorriso, se for sincero, suplico, não volte! 
Entenda, acabou. Não o nosso amor, mas o tempo de ficarmos juntos. Esse tempo só existe até ali, naquela porta, mas nosso amor nos segue quando fugimos por ela. É por isso que sempre voltamos, porque lá fora não existe mais eu e você juntos, embora cada um carregue o nós que construímos aqui dentro. Se voltar, logo se cansará de novo, porque o passado não muda. Hoje só existo para matar a saudade que você sente e não para fazê-lo feliz.
Dessa vez será diferente, não ficarei na expectativa do retorno, pois também estou saindo por aquela porta. Sei que virá à minha procura e não estarei mais aqui. Quando voltar, terá que contentar-se com nossas fotos, nossos cheiros, nossas musicas, porque essas coisas que foram feitas para ficar no passado, estas sim, podem ser visitas quando a saudade apertar, mas a gente não pode viver aqui para sempre. Também sei que partindo, talvez jamais o reencontre. Mas continue rindo, ria o mais alto que puder e quando meu coração ouvir tenho certeza que me alegrei contigo. Quero muito que seja feliz, meu amor por você quer isto, e esse amor nunca, nunca acaba.




quarta-feira, 21 de março de 2012

Disfarce




Decidi por um tempo não fazer barulho. Sei que o grito da alma é estridente, mas não há, no mundo inteiro, sorriso que não o abafe.  Foi difícil ensinar as lagrimas o caminho da garganta e não dos olhos. Engolir choro dói, mas agora, com goela calejada, já nem sinto.  Mas, todo esse esforço não passa de um disfarce, é a capa que visto todos os dias, é a mentira que conto quando perguntam se já me esqueci de você.
A ultima vez que nos vimos não consegui segurar o riso ao notar que vestíamos a mesma fantasia, usávamos os mesmos truques de uma falsa indiferença e sorrisos que forjavam autocontrole. Mas, bastou olhos nos olhos, e de repente ficamos desmascarados, descobertos de todo disfarce, em completa exposição de sentimentos. Mais uma vez o amor falou mais alto e nos colocou no mesmo ritmo. Frágeis e entregues, sozinhos e, enfim, sinceros. Era nosso baile sem mascaras, onde vestir de nós mesmos era a única roupa apropriada para ocasião e as palavras de amor guardadas eram musicas para nossos ouvidos. Sugamos o máximo de cada minuto, mas antes que a meia-noite roubasse o encanto do nosso reencontro, fugimos desesperadamente, sem deixar os sapatos para trás. Afinal, já deixamos coisas demais na vida um do outro. Agora, somos dois fugitivos, fantasiados, fingindo que nada aconteceu. 
Nossa recaída quebrou meu silencio. Depois de tanto tempo me escondendo das palavras fui achada, sei que agora estou sendo lida por elas e tenho medo do que podem falar por mim. Peço encarecidamente que não estraguem meu disfarce. Se elas disserem que ainda o amo, eu nego. Se as palavras contarem que ainda gasto meu tempo tentando entender como nosso relacionamento se desfez, buscando o exato momento em que deixamos de ser tudo um para o outro, eu juro que as faço parecerem insanas e descabidas. Suplico às palavras que me ajudem nessa farsa de não me importar com sua falta, mesmo que exista dor debaixo desse sorriso. Que a solidão não faça parte dos meus textos, que a tristeza não ganhe letras e linhas.
Talvez com tempo venha o desapego, e tudo que vivemos vire apenas boas lembranças, sem saudade. Ou talvez jamais abramos mão dessa capa, dessa mentira. Quem sabe continuaremos escondendo o mesmo segredo por longos anos, sempre arrumando uma forma de encobrir um amor que ainda incomoda, que ainda pede mais um pouquinho de presença. Assim, seguiremos tentando caber em outros abraços, nos enfiando em corações tão cheios quanto os nossos, mas desejando secretamente as noites mágicas dos bailes sem mascaras.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

O que fica

O que faria se descobrisse que tem apenas alguns dias de vida? Quem sabe dois meses, um mês ou ainda somente essa semana, o que faria? Com seis anos diria que tomaria todo sorvete do mundo ou que consumiria todo estoque de balas do planeta. Aos doze, meu ultimo desejo seria conquistar o garoto popular da escola. Minha resposta aos dezoito anos seria qualquer coisa relacionada a prática de esporte radical, fazer Bungee jumping, saltar de paraquedas ou subir qualquer montanha. E hoje pensando em uma resposta cheguei a conclusão que acabar com os estoques de sorvetes e balas do planeta ou me gabar por ser a garota radical que pega o garoto mais gatinho da escola não é mais importante do que o fica quando a gente se vai. 
O que você deixaria hoje se partisse? Não falo de dinheiro, jóias ou coleções de cartões telefônicos, falo das coisas que os olhos não veem e que dependem da sensibilidade do coração para serem sentidas. Quero ser saudade antes partir, quero ser lembrança ainda presente. Quero que minhas atitudes demonstrem aos meus amigos o quanto os estimo, quero me certificar que não faltou carinho, que sobrou lealdade, quero ser lembrada em festas nas quais não comparecerei por estar com dor de dente, quero que desejem minha companhia mesmo que seja só para jogar conversa fora em um dia nublado, quero que anseiem por minha presença enquanto eu puder supri-la.
Quero carregar meus pais no colo e fazer o possível para recompensá-los por todo trabalho feito e pela dedicação que tiveram para que eu crescesse bem, e realmente cresci, aquela queda do berço só me fez ficar um pouco lesada, mas nada que a simpatia herdada deles não compense. Quero sempre irritar meus irmãos com minhas chatices, afinal, não é pra isso que os irmãos servem? Para nos mostrar que somos capazes de amar incondicionalmente uma pessoa mesmo conhecendo todos os seus defeitos. Quero diariamente retribuir o carinho, a amizade e proteção que recebo da minha família, para que eles não tenham que vasculhar o passado em busca de uma boa lembrança.
Quero deixar um amor sincero, quero fazer alguém se sentir a pessoa mais linda, especial e segura do mundo. Na verdade, eu preciso mesmo é que essa pessoa perceba isso, que note que nem o Penn Badgley rouba minha atenção quando ele está por perto. Quero que ele saiba que eu prefiro uma tarde chuvosa ao lado dele, ouvindo The Smiths e saboreando um Doritos do que um jantar romântico em um iate, tentando encher a barriga com toda aquela comida fresca, enquanto toca a música mais linda do mundo, More Than Words, e na companhia, claro, de Penn Badgley. E ainda que Penn Badgley prometesse que me faria a mulher mais feliz do mundo eu não trocaria pela esperança que fica a cada vez que em pequenos gestos ele demonstra ser capaz de fazer o mesmo. Todos merecem ser amados de verdade, essa é a maior prova de aceitação, é como se a outra pessoa dissesse: - “Ei, eu sei que você é teimoso, impaciente e egoísta, mas tudo bem, eu te amo mesmo assim”.  - Ou: - “Ei, eu sei que você tem o dedinho do pé torto e que tem mania de roer as unhas, mas tudo bem, ainda assim quero viver todos os dias da minha vida ao seu lado”. – Quero que essa pessoa enxergue esse sentimento, enquanto eu estiver aqui para dá-lo a certeza de que foi amado pelo simples fato de existir.
Se meus dias estivessem contados, tentaria salvar o mundo com palavras, pois muitas vezes fui salva por elas, assim alcançaria aqueles que ainda não conheço, deixaria minhas historias, meus devaneios e tentaria convencê-los de que nenhum bem material fará sentido se a pessoa que o herdou não fizer questão de se lembrar de quem o deixou e que as coisas mais gostosas que podemos receber de alguém são aquelas que cabem em nossos travesseiros, são aqueles bons pensamentos que nos aguardam ali antes de dormir, que nos arrancam suspiros e sorrisos enquanto o sono não chega, é a certeza de que nunca estamos sozinhos, é isso que quero ser para as pessoas, uma boa lembrança antes mesmo de partir.


Abraços!



  • Para as minhas amigas que ainda não conhecem o lindo do Penn Badgley, segue abaixo uma foto.
  • Rapazes, saibam que para alguma garota nessa vida o Penn Badgley nunca chegará nem aos pés de vocês.
  • E para quem não se lembra da música More Than Words (linda!), estou deixando um vídeo.








domingo, 9 de outubro de 2011

Coração bagunçado


Sumi, confesso. É que o coração está tão bagunçado que não sei onde enfiei as palavras, pra dizer a verdade, há muita coisa perdida aqui dentro, ele parecia ser mais espaçoso quando eu era menor, meu pecado foi achar que ele não tinha limite. Preciso descobrir alguma forma de voltar à configuração original, não que eu queira negar meu passado, não que eu me arrependa de tudo que fiz até aqui, é apenas uma questão de sobrevivência, sinto que ele pode explodir a qualquer momento.
Deus e família são acessórios de fabrica do coração, o resto, tudo que está dentro de nós, todas essas porcarias e todas as coisas que julgamos preciosas, são de responsabilidade nossa. Lembro que quando era pequena enchia meu coração de fantasia, aquelas crenças de criança, fadas, Coelho da Páscoa, Papai Noel e a terrível Mulher do Algodão, abriguei todas essas historias até o dia que descobri que tudo não passava de alimento para nossa fértil imaginação infantil e as encostei em um canto.
Depois vieram as paixonites, época boa, quem disse que criança não sofre por amor, eu chorava ouvindo a musica de Sandy e Junior, Meu Primeiro Amor. Lembro que voltava a fita cassete (me senti velha agora) umas trinta vezes enquanto pensava no meu amor secreto, o Lucas, eu tinha acabado de entrar para primeira serie e ele estava um ano avançado, o achava lindo, ele era a sensação da escola, sempre engraçado, uma vez ele baixou as calças durante a sessão do filme Gasparzinho - O fantasminha camarada, e eu com essa queda para garotos idiotas fiquei ainda mais apaixonada, aquilo que eu já estava namorando com ele e ele nem sabia. No ano seguinte meu amor se foi, mas se foi de verdade, nunca mais o vi. Com sete anos de idade pensei que aquele seria meu fim, morri por dentro e depois morri mais um monte de vezes, porque o tempo foi me apresentando outros garotos lindos, outras paixões não correspondidas que hoje, junto com o Lucas, estão guardadas dentro de alguma caixa, atrás da estante de amigos.
Amigos, quem não enche o coração deles? Nunca barrei ninguém, um sorriso na fila do ônibus e já coloco a pessoa pra dentro, tenho essa mania de achar que todo mundo é amigo, decepções nesse caso acabam sendo inevitáveis, criamos expectativas sobre pessoas que não tem por nós a mesma consideração. Culpa delas? Claro que não, culpa nossa que não cobramos nada para chamar alguém de amigo, não cobramos a lealdade, não cobramos o ombro pra chorar, não cobramos nem se quer a companhia em um dia difícil, mas, oferecemos o passe livre para que entrem em nossos corações. Pois, pensamos que a quantidade de pessoas que abrigamos é mais importante do que a qualidade, do que o caráter das pessoas que escolhemos para estar ao nosso lado.
Sem perceber amparei algumas tristezas, mágoas, essas parecem que se misturaram e criaram alguns traumas que são responsáveis por atrapalhar nossa harmonia interior. Como é difícil conviver com sentimentos ruins, sempre que temos uma idéia boa eles nos colocam pra baixo: “Lembra quando aconteceu isso e isso"? Ou: "Você não é bom o suficiente pra conseguir tal coisa"! Esses sentimentos não servem para outra coisa além de destruir a confiança que temos em nós mesmo, mas, ainda assim os mantenho espalhados pelo meu coração.
No meio dessa bagunça também existe muito estresse, impaciência, preocupação. Coisas boas? Claro que tem, ainda guardo lembranças da infância, experiências do tempo de escola, amizades que deram muito certo, conquistas, sonhos, mas o coração não é feito de partes, não pode se apegar a um pedacinho gostoso e esquecer-se do resto. Em nossa caminhada é necessário o conjunto e esse às vezes é tão pesado que nosso peito não aguenta.
No meu coração também mora um amor, esse já se sente o dono da casa, senta no sofá, coloca os pés sobre a mesa e me faz dançar conforme a sua música. E o que eu faço? Danço, sinto e morro todos os dias como quando eu tinha sete anos, a diferença é que quando se é menina, você está sempre disposta a morrer mais uma vez.
Agora, já crescida, percebo que poderia ter poupado alguns espaços. Colecionei tantos problemas pequenos que hoje qualquer coisinha já me tira do serio. Insisti em falsas amizades e deixei de lado algumas pessoas que, no fundo, sei que fariam de tudo pra me ver bem. Dei espaço para muitas vontades que não tinham a menor possibilidade de darem certo e hoje as coisas certas, por falta de espaço saem pela janela. Nenhum proveito me trouxe os sentimentos ruins. Me enchi de um amor  e hoje não sei como me esvaziar dele.
Já que não existe um botão restaurador, uma borracha que apague os maus momentos, as más escolhas, preciso encontrar em mim motivos para seguir em frente, para isso preciso voltar ao ponto inicial, pois não é a toa que nosso coração já vem de fabrica com os itens Deus e família, porque quando tudo está dando errado são neles que nos apoiamos para continuar a caminhada e se você for esperto terá conquistado um amigo fiel também, eles ajudam bastante. Agora, preciso só achar minha fé, a esperança de que tudo vai dar certo. E as palavras? Essas, parece que acabei de encontrar!

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Visita

Meu amor, não sei se deveria te incomodar com essa notícia, mas hoje nossa casa recebeu visita. Não se via ninguém por aqui desde que você partiu e deixou esse coração todo só pra mim. Alguns até tocaram campainha, jogaram pedrinhas na janela, mas eu tinha um medo terrível de me aproximar da porta, pois seu cheiro, que ainda está impregnado em cada canto, poderia sair por alguma fresta.
Há semanas uma pessoa está rondando nosso jardim, já não me importava com o que acontecia lá fora, pois era você que cuidava daquele cantinho, por isso, nem me incomodei com a presença desse estranho que chegou sorrateiramente, antes só observava, depois começou cavar, limpar, e eu só o vigiando pela janela, espionando cada passo. Ele parece ser um bom moço, plantou a flor do sorriso, da descontração, do companheirismo, flores que morreram aos poucos desde que se foi. Desenterrou coisas que você escondia de mim no quintal e isso me chateou um pouco. Olhando daqui consigo ver bem viçosa a plantação da confiança, por essa ele parece ter um cuidado especial, não passa um dia sem regá-la, tem várias outras, tem carinho, respeito, diversão, até a tranquilidade, que você dizia ser impossível nascer em nosso solo, esta brotando agora. 
Foram dias de dedicação, debaixo de sol, de chuva, sempre batendo na porta, com esperança de que eu abrisse, mas me fazia de surda, desinteressada, como se todo aquele trabalho não tivesse importância alguma pra mim, escondendo minha admiração e felicidade por essa casa abandonada ter atraído a atenção de alguém. Logo, sem retorno, sem uma demonstração de gratidão ou uma pontinha de interesse da minha parte, ele foi cuidar do jardim da vizinha, então, me peguei enciumada, abandonada por uma pessoa que nunca aceitei em minha vida. Quis bisbilhotar, escancarei a janela, mas de lá minha visão ficava pela metade, então,  abri a porta, saí por alguns minutos, mas vê-lo cultivar em outro coração não me fez bem, por isso voltei rapidamente para meus aposentos, acabei deixando a porta meio aberta e isso lhe pareceu convidativo, e quando percebi, aquele misterioso jardineiro já estava aqui dentro. 
Senti vergonha da poeira que nunca tirei, do seu lado da cama que nunca arrumei, as manias que cultivamos ainda estão dentro de uma caixa junto do seu sorriso atraente, do seu olhar sincero, de seus beijos. Nossas musicas ainda  tocam no aparelho de som do quarto e sempre me pego cantarolando sem querer. Na televisão passa o vídeo de nossos melhores momentos, quando éramos parceiros, cúmplices, nele está nossas melhores risadas, nossos segredos. Os sonhos ainda estão dentro do guarda-roupa, há saudade espalhada por toda casa e boas lembranças penduradas nas paredes que continuam pintadas de amor, pois assim juramos que seria até o fim. Nos fundos tem um saco de lixo com promessas quebradas, mentiras gastas, algumas verdades que deixamos de usar ao longo do tempo e muitas discussões que nunca serviram para nada. No forno da cozinha ainda estou assando a magoa que ficou e atrás da porta está a vassoura do esquecimento pronta para uso, esperando apenas minha coragem. 
Sabe meu querido, esse forasteiro que plantou em mim a vontadade de viver novamente quer me ajudar a colocar as coisas em ordem, pra me agradar antes de sair me deu uma caixinha cheia de borboletas e por um descuido meu, elas bateram asas e saíram pela janela, tenho a sensação de que foram parar bem no meio da minha barriga, pois a cada vez que me lembro dele, elas se agitam e sinto um ventinho frio, o mesmo que senti quando vi você pela primeira vez.
Amor,  só quero comunicar que aquela chave escrita eu te amo que te dei já não abre mais nossa porta, ainda não tinha trocado a fechadura, pois aguardava ansiosamente que voltasse. Mas enquanto pensava estar invisível, imperceptível, fui encontrada por esse homem cativante, que roubou minha atenção, e agora as janelas e portas desse coração abandonado estão abertas pra ele entrar. Pela primeira vez, estou desejando um novo inquilino para me fazer companhia. Ele disse que volta amanhã, e eu estou esperando.